Se não posso mudar o mundo, vou dele me retirar. Este parece ser, no final, a opção do Selvagem, configurada no último capítulo de Admirável Mundo Novo. “Comi a civilização”, diz ele. E foi intoxicado por ela. Por isso, necessita de purificação, o que significa uma volta às origens. Tal como Bernard, o Selvagem não se enquadra na nova civilização, só que se um sofre por não se enquadrar, o outro o faz por experimentar algo que, no seu entender, só pode intoxicar as pessoas. De um lado, a inadaptação traz o desejo de integração, do outro, uma total rejeição àquilo a que foi exposto.
E o que acontece? A volta à barbárie, ao ambiente sujo, o fim da assepsia, inclusive dos sentimentos. Livre, finalmente, o Selvagem volta à solidão, ao sofrimento, à expiação. E por tudo isso, vira atração, fazendo com o que sinta seja também sentido pelos civilizados. Ao buscar a redenção, ele acaba redimindo quem foi pasteurizado, homogeneizado, não tem sentimento. Para ele, então, estranho em dois mundos, não há saída. Resta a morte, que ele procura através do suicídio.
Mas será que é assim, mesmo? Que vivemos em um mundo dualista e maniqueísta? Que não temos liberdade de pensar? Que nos escondem a verdade? Estas e outras perguntas ficam ao final do livro. A reflexão que eles nos provoca leva-nos ao atual, ao que está sendo feito no mundo e, de forma surpreendente, guarda similaridades com a atualidade. Veja-se, por exemplo, a dualidade, configurada na postura dos Estados Unidos entre o bem – a civilização – e o mau – o mundo islâmico, sobretudo o fundamentalismo – que é a barbárie.
E quanto a pensar de forma independente, será que fazemos isso? Em parte, sim. Mas se tomarmos a grande massa, talvez seja o caso de afirmar que não. E tal como no Admirável Mundo Novo, são os meios de massa que contribuem para formatar uma verdade que, no final, esconde a própria verdade. Veja-se, como exemplo, o caso do capitalismo, que trouxe prosperidade e liberdade. Olhe-se sob o tapete e o que vemos são bolsões de miséria, gente passando fome e países e mais países onde, em nome do capital, se sufoca a liberdade.
Aldous Huxley, embora use o avanço da ciência como algo bom, é pessimista, muito pessimista em seu livro. Nele, não vê outro caminho para a civilização que não seja um governo central, forte, não democrático, que submeta a população. Só assim, afirma, teremos estabilidade e só com estabilidade é que podemos nos livrar da barbárie, construindo uma terceira via. Ele admite o sacrifício da liberdade e da individualidade m favor do progresso, do crescimento da sociedade e aceita que, para conseguir isso, a ciência atue como fator primordial.



5 comments
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Fevereiro 3, 2008 às 1:38 am
Dani
Vi muitas coisas parecidas entre nosso mundo e o admiravel… uma delas é a massificaçao que tb ocorre na nossa sociedade. Como vc mesmo diz, as classes mais baixas tem menos chance e oportunidade pra pensar de forma independente. E outra… acho o soma muito parecido com a nossa televisao!! As pessoas saem do trabalho, chegam em casa e ligam a TV pra se desligar do mundo… nao sao discutidas as ocorrencias atuais!!!
Mas o mais triste n0o livro pra mim é quando ele diz que progresso é a perda da verdade e, até, da ciencia!! Assustador!!!
Fevereiro 3, 2008 às 12:44 pm
Luciane
Lino, parabéns pela tua “maratona” de textos. Achei interessante a tua interpretacão do livro. Abraco!
Fevereiro 3, 2008 às 3:05 pm
Lys
E o soma eh a religiao dos mais pobres
Lino ! Muito bacana sua maratona. Faco minhas as palavras da Lu !
Fevereiro 7, 2008 às 8:23 am
Marcelo
A questão que o “Admirável Mundo Novo” aborda pode ser observada, com algumas sutis diferenças, no filme “O Show de Truman”, onde o sujeito é controlado desde criança.
Muito bom você ter falado da ausência do filósofo na discussão. E o Foucault tem alguns trabalhos, que abordam o poder, que também podem ser articulados com o livro do Huxley. O “a ordem (!) do discurso” e o “arqueologia do saber”.
Refletindo esses trabalhos em conjunto com trechos que li do Huxley, dá pra pontuar que, no nível simbólico a coisa é exatamente assim.
Com relação às nossas prisões mentais, ao nosso convívio com o saber-poder que nos busca o tempo todo (segundo o Foucault), eu diria que vivemos entre o tique nervoso e o anestésico.
Beijo.
Fevereiro 7, 2008 às 8:25 am
Marcelo
Pô, não entendo mais nada…
Boto o texto num lugar, e ele vai pra outro…
Vou perguntar como aquele geniozinho do desenho: “O que está acontecendo??”