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brave6.jpgSe não posso mudar o mundo, vou dele me retirar. Este parece ser, no final, a opção do Selvagem, configurada no último capítulo de Admirável Mundo Novo. “Comi a civilização”, diz ele. E foi intoxicado por ela. Por isso, necessita de purificação, o que significa uma volta às origens. Tal como Bernard, o Selvagem não se enquadra na nova civilização, só que se um sofre por não se enquadrar, o outro o faz por experimentar algo que, no seu entender, só pode intoxicar as pessoas. De um lado, a inadaptação traz o desejo de integração, do outro, uma total rejeição àquilo a que foi exposto.

E o que acontece? A volta à barbárie, ao ambiente sujo, o fim da assepsia, inclusive dos sentimentos. Livre, finalmente, o Selvagem volta à solidão, ao sofrimento, à expiação. E por tudo isso, vira atração, fazendo com o que sinta seja também sentido pelos civilizados. Ao buscar a redenção, ele acaba redimindo quem foi pasteurizado, homogeneizado, não tem sentimento. Para ele, então, estranho em dois mundos, não há saída. Resta a morte, que ele procura através do suicídio.

Mas será que é assim, mesmo? Que vivemos em um mundo dualista e maniqueísta? Que não temos liberdade de pensar? Que nos escondem a verdade? Estas e outras perguntas ficam ao final do livro. A reflexão que eles nos provoca leva-nos ao atual, ao que está sendo feito no mundo e, de forma surpreendente, guarda similaridades com a atualidade. Veja-se, por exemplo, a dualidade, configurada na postura dos Estados Unidos entre o bem – a civilização – e o mau – o mundo islâmico, sobretudo o fundamentalismo – que é a barbárie.

E quanto a pensar de forma independente, será que fazemos isso? Em parte, sim. Mas se tomarmos a grande massa, talvez seja o caso de afirmar que não. E tal como no Admirável Mundo Novo, são os meios de massa que contribuem para formatar uma verdade que, no final, esconde a própria verdade. Veja-se, como exemplo, o caso do capitalismo, que trouxe prosperidade e liberdade. Olhe-se sob o tapete e o que vemos são bolsões de miséria, gente passando fome e países e mais países onde, em nome do capital, se sufoca a liberdade.

Aldous Huxley, embora use o avanço da ciência como algo bom, é pessimista, muito pessimista em seu livro. Nele, não vê outro caminho para a civilização que não seja um governo central, forte, não democrático, que submeta a população. Só assim, afirma, teremos estabilidade e só com estabilidade é que podemos nos livrar da barbárie, construindo uma terceira via. Ele admite o sacrifício da liberdade e da individualidade m favor do progresso, do crescimento da sociedade e aceita que, para conseguir isso, a ciência atue como fator primordial.