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Estranho em uma terra estranha, John acaba em um embate sobre os fundamentos da civilização com sua Fordeza, o governante da parte do Admirável Mundo Novo em que está. Nela, contrapõe as idéias tiradas não só da sociedade selvagem em que vivia, mas colhidas de Shakespeare e seus personagens, como o conceito de honra.
O que o Selvagem enfrenta é uma última tentativa de desconstrução do que é, do que foi. Primeiro, lhe é colocada a opção entre civilização e barbárie, sendo que, no caso, a barbárie é o não enquadramento, a não submissão, a existência do sentimento, o apego a uma moral, a crença em um ser superior, os procedimentos nada assépticos da flagelação.
Mas quais são os fundamentos da civilização do novo mundo? Primeiro, a estabilidade, que não é espetacular, mas que acontece, fluindo e permitindo que o mundo funcione e que todos sejam felizes. Por isso é que não há nada de espetacular, o que só acontece na instabilidade, já que a felicidade nunca é grandiosa. Depois, pela ordem, que se contrapõe ao caos do pensamento e dos desejos individuais. Neste cenário de estabilidade, ordem e felicidade a mudança é uma ameaça, como também a ciência, que pode propiciar esta mudança, e a verdade.
E é, de certa forma, em torno da verdade que se dá o verdadeiro embate, questionando os fundamentos da sociedade, como falta de liberdade, supressão da individualidade, supressão dos sentimentos, conformismo, submissão às drogas, mas, e sobretudo, ao controle de uns poucos sobre muitos. Tudo o que foi feito, como afirma Mustafá Mond, teve um objetivo: tornar a sociedade estável. E é para manter esta estabilidade que a individualidade e a originalidade têm de ser abolidas. No Admirável Mundo Novo esta é a verdade. Para John, o Selvagem, não, o que nos leva a uma verdade conceitual, que muda de acordo com os pontos de vista e interesses.
O controle existe para que tudo funcione. E tudo funciona. E é este controle que torna o mundo asséptico, inodoro, sem gosto e sem sentimento. O que prevalece é a totalidade, seja ela olhada do ângulo do indivíduo ou da própria sociedade. Não existe um, mas todos. Prevalece, sempre, o coletivo. E para que ele impere, mata-se o individual, a mudança, a inovação. É como se o mundo fosse estático. Neste mundo não há nobreza, não há heroísmo, só obediência.
Se o Admirável Mundo Novo nos coloca a opção de civilização ou barbárie, o que dizer do mundo atual. Não estaremos reproduzindo esta escolha, olhando, de um lado, o Ocidente como civilizado e o Oriente, principalmente os muçulmanos, como selvagens? Não estaremos reproduzindo o maniqueísmo que não nos deixa uma terceira opção?
Olhando o hoje, vemos que, na verdade, não há muita diferença entre o mundo de John e de quem é decantado para o mundo dos homens. Nos dois, as opções são muito pequenas. E quem não se enquadra é tratada como o selvagem foi tratado em Admirável Mundo Novo.

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