brave3.jpgSob esta ótica podemos agrupar os capítulos que vão do quinto ao nono. Neles, se faz, primeiro, a apologia do condicionamento, o que redunda na felicidade de quem, sendo condicionado, sente-se perfeitamente integrado na sociedade e no seu meio social. É neste sentido que “é bom ser Alfa” e não é bom ser qualquer outra coisa. A felicidade, neste caso, está no cumprimento do seu papel, que pressupõe trabalho e consumo, com momentos de fuga da realidade através de sua dose diária de soma.

Em uma sociedade onde não existe religião – e este é um assunto discutido mais adiante – o próprio corpo é tratado como matéria, reduzido a cinzas reciclado. A única concessão ao coletivo são os transes, que funcionam como uma espécie de “descarrego”, fazendo com que, depois dele, as pessoas voltem ao “normal”. A sociabilidade é maximizada, com a individualidade sendo vista como problema, daí o tratamento do transe coletivo.

O mundo é asséptico, inclusive de sentimentos. Daí a assertiva de que os habitantes do Admirável Mundo Novo serem adultos no trabalho e criancinhas do sentimento e desejo. Aliás, os dois não existem e o relacionamento, se não chega a ser funcional, tem mais o sentido lúdico, maximizado pelos jogos, incluindo neles o jogo sexual. O que Huxley não deixa claro é que se há prazer no sexo. Como o mundo é asséptico, pode se pressupor que não.

A este mundo asséptico é contraposto o “mundo selvagem”. Ele é sujo, carnal, cheio de crenças e superstições, nele prevalece o amor, o ódio e a vingança, a dignidade é vista como sacrifício, os conflitos permanentes, inclusive pela “posse” de outros humanos, a expiação uma necessidade. Marcados pelo pecado original, submetidos aos deuses, os não “civilizados” vivem uma vida degradante, inclusive degradando o próprio corpo, o que é um insulto para os “civilizados”. O sentimento – em todos os sentidos – leva ao gueto e lá é mantido, longe, restrito, de forma que não ofereça nenhum risco de contaminar a civilização.

Estabelece-se, aqui, a visão maniqueísta que contrapõe civilização à barbárie, não antevendo um meio termo, em que se poderia ter algo da civilização e um pouco da criatividade da barbárie. O resultado é que no processo civilizatório, cria-se um novo conflito, gera-se uma nova pessoa, dividida, que já não sabe a que mundo pertence e já não vê o novo mundo assim tão admirável.