Se olharmos os quatro primeiros capítulos de Admirável Mundo Novo vamos ver que a discussão central neles se prende aos quesitos estabilidade, sociabilidade e moral. No primeiro caso, enquadram-se todas as ações tomadas pela Direção Mundial, de fabricar humanos com perfis específicos para a realização de determinadas tarefas e seu condicionamento, primeiro, para viver em conjunto, e depois para serem felizes com o que fazem.
Esta sociedade paradoxal, se olhada sob nosso ponto de vista, oferece, ao mesmo tempo, estabilidade de emprego, emocional, financeira e se baseia em um relacionamento superficial, onde o sexo é fator lúdico, não existe envolvimento emocional e o consumo, uma obrigação. A moral não guarda qualquer racionalidade e, tampouco, está alinhada a nenhum tipo de crença. Na verdade, como todos são condicionados, ela não existe, podendo se falar, então, em amoralidade.
Neste novo mundo, que só é admirável quando visto de fora, por quem não é “civilizado” – até porque os “civilizados” não pensam – estabilidade quer dizer ordem, quer dizer padrão, quer dizer não contestação, quer dizer conformismo, quer dizer fuga da realidade. Liberdade, em contrapartida, é o caos, já que o pensamento criativo põe em choque a igualdade forçada, a obrigação do conformismo e desfaz o relacionamento casual, reclamando a “posse” da pessoa amada, na base de um para um e não de um pertence a todos.
Por isso é que Bernard Marx se sente incomodado com sua iniciante individualidade, que o coloca à parte do todo e o faz se sentir como um paria. A diferença gera inquietação e leva à contestação. A construção da utopia do igualitarismo – baseada nos primórdios do comunismo na Rússia – faz com que seja preciso abrir mão da individualidade, como se abria mão da propriedade. Se sou eu, não posso aceitar o total, o todo. E se não aceito o todo, não posso exigir estabilidade, pois ele só é conseguido mediante padronização.



6 comments
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Janeiro 29, 2008 às 2:02 pm
Lys
Lino, essa primeira parte do livro eh interessante. O jeito com que o autor descreve tambem, nas palavras de um instrutor conduzindo friamente seus estudantes, foi brilhante. Era possivel ver o admiravel mundo novo segundo e o nosso mundo como referencia negativa na perspectiva deles e nao nossa. A padronizacao eh realmente vibrante. E a questao de terem milhoes de criancas saindo de um mesmo ovulo ? Ou seja, dezenas de pessoas iguais. Ou seja, “igualdade” em todos os aspectos possiveis dentro de uma mesma casta. Em compensacao, temos as diferentes castas.
Bernard Marx tambem se sentia incomodado com sua aprencia fisica que era tipica de uma classe inferior. Ou seja, tambem havia uma diferenciacao fisiologica e nao apenas psicologica. Tambem se diferenciavam pelas cores nao eh mesmo ? Eh interessante mesmo ne ? Muito bem sacado. Gostei bastante dessa primeira parte.
Mas aonde entraria a diferenca de castas na padronizacao ? Fico confusa em relacao a isso.
Janeiro 29, 2008 às 3:59 pm
Dani
Eu achei fantastica a primeira parte do livro pq ele situa mto bem o leitor, explicando todaa padronização como numa aula mesmo. A estabilidade da sociedade mais me parece um daqueles tapa-olhos q usam em jegues pra nao olhar pros lados!! O cara so deseja o q pode ter e assim nao existe incoformismo nem desejo!! Nao existe nem mesmo o desejo sexual pois o sexo eh quase uma obrigaçao, uma tarefa a ser cumprida!!
Lys, eu acho q a diferença de castas eh algo necessario na padronizaçao. Imagina se todos sao Alfas, iguais, como um faria o trabalho de engenheiro enquanto o outro seria servente?!!? Todos os iguais devem fazer coisas iguais pra q nao haja a inveja nem o desejo de ser melhor q o outro!! Havendo a diferença acaba por existir a igualdade, pois dentro de cada casta todos sao iguais.
Janeiro 29, 2008 às 6:36 pm
scliar
Bom, lá vai o “mundaréu” acumulado de palpites… É que como eu sou da casta dos trabalhadores, ainda labutando em troca de uns parcos reais… Quanto ao sexo… O que é isto mesmo, minha gente? kkkk
1) Adorei o filme do Skinner, porque dá mesmo o que pensar. É que as tecnologias vão sendo introduzidas de forma tão sutil, a gente vai incorporando, nem percebe…
2) Adoro um trechinho do início do livro, em que justamente a importancia da palavra é destacada: “As palavras podem ser como raios X, se usarmos adequadamente: penetram em tudo.” Fantástico não? Daó porque todos os movimentos ditatoriais tentam censurar os livros…
3) Aprender durante o sono: bom, se aprende, não sei. Mas que o sono é fundamental para que o tico e o teco funcionem, lá isto é! But, há uns 20 anos atrás (ixi, to dedurando a minha idade…) tinha um aparelho que prometia ensinar inglês enquanto você dormia, se chama Memotron, memoréx, ou alguma coisa do genero… kkkk
4) E continuo achando que a gente é condicionado, agora de uma forma mais sutil, mas até mais eficiente! Porque quando é algo violento, dá para se rebelar. Mas quando é algo que não se percebe, que você até CONCORDA que está correto, fica difícil a crítica. Acabei de ler sobre um livro que saiu nos EUA (ainda não tem em português) sobre o papel da CIA na conformação cultural, durante a guerra fria, de Frances Saunders (Título: The Cultural Cold War). Fala sobre as ações da CIA subvencionando autores aparentemente “comunistas” ou de “arte degenerada”, como Pollock, Stephen Spender e outros. Até Hannah Arendt estava no bloco. Se sabiam ou não quem estava financiando, via agências de fomento, as atividades intelectuais, é algo a ser esclarecido. Mas, com certeza, foi uma estratégia muito mais eficaz do que a empregada pela então URSS, com sua arte hiper-realista.
Enfim, usaram o que hoje conhecemos como estratégias publicitárias de motivação subliminar (ainda vou ter que abordar isto lá meu “brogui”). Mas isto fica para outro comentário, que este já está para lá de grande… E ainda tem um outro sobre o homem biônico que sou OBRIGADA a falar no assunto! Tô quase me candidatando a vaga de “posteira” de 4a. feira… Inda tá aberta?
Bzus somáticos para todos.
PS Dani: Acho que sim, que existia desejo sexual, era até estimulado, porque não estava “atrelado” ao ato de procriação, como no caso dos “selvagens”.
Janeiro 29, 2008 às 10:02 pm
Sergio
Olá, Lino!
Pessoas condicionados, ou super condicionadas, acreditam que o mundo so funciona dessa forma. O que diria ele vendo ´´The Wall´´? a parte dos alunos.
Um abraço
Janeiro 29, 2008 às 11:43 pm
Blog do Lino
Lys, Dani, Scliar e Sérgio:
No caso das castas, na verdade a sociedade é condicionada, então não são as castas que contam, mas o condicionamento que é feito a partir da separação do óvulo e da criação dos betas, deltas, etc. e tal. Não existe consciência de classes ou castas. “É bom ser alfa”, “não é bom ser beta”. A dualidade é o que impera, exatamente devido ao condicionamento.
Quanto à diferenciação do Bernard Marx, acho que ela se dá muito mais no lado psicológico que no físico. O que o incomoda é o condicionamento, em primeiro lugar, não o físico. Este apenas reforça o seu sentido de estranhamento.
Desejo sexual existe, sim. Só que o sexo é visto como uma manifestação corriqueira, que chega quase a uma obrigação. O que não existe é moralidade, já que todos são precondicionados a se portarem de uma tal maneira e é esta a maneira natural de se portarem.
E concordo quanto ao condicionamento atual ser sutil. Somos condicionados pela cultura, pelo grupo, pelo trabalho. E nos enquadramos. Até por sermos reconhecido. A divergência nos coloca à margem, exatamente como no Admirável Mundo Novo.
Por fim, o condicionamento é relativo e sempre pode haver quem se revolte. No caso do Admirável Mundo Novo, é Bernard e o poeta de nome estranho. Na vida real, sempre temos divergentes. E vamos continuar a tê-los.
Março 20, 2008 às 2:41 pm
E o ciclo se fecha com sete « Clube do Livro
[...] Dividindo para não complicar 2. Estabilidade, sociabilidade e moral 3. Condicionamento, desequilíbrio e paixão 4. Vingança, identidade e rebeldia 5. Deus, [...]