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Se olharmos os quatro primeiros capítulos de Admirável Mundo Novo vamos ver que a discussão central neles se prende aos quesitos estabilidade, sociabilidade e moral. No primeiro caso, enquadram-se todas as ações tomadas pela Direção Mundial, de fabricar humanos com perfis específicos para a realização de determinadas tarefas e seu condicionamento, primeiro, para viver em conjunto, e depois para serem felizes com o que fazem.
Esta sociedade paradoxal, se olhada sob nosso ponto de vista, oferece, ao mesmo tempo, estabilidade de emprego, emocional, financeira e se baseia em um relacionamento superficial, onde o sexo é fator lúdico, não existe envolvimento emocional e o consumo, uma obrigação. A moral não guarda qualquer racionalidade e, tampouco, está alinhada a nenhum tipo de crença. Na verdade, como todos são condicionados, ela não existe, podendo se falar, então, em amoralidade.
Neste novo mundo, que só é admirável quando visto de fora, por quem não é “civilizado” – até porque os “civilizados” não pensam – estabilidade quer dizer ordem, quer dizer padrão, quer dizer não contestação, quer dizer conformismo, quer dizer fuga da realidade. Liberdade, em contrapartida, é o caos, já que o pensamento criativo põe em choque a igualdade forçada, a obrigação do conformismo e desfaz o relacionamento casual, reclamando a “posse” da pessoa amada, na base de um para um e não de um pertence a todos.
Por isso é que Bernard Marx se sente incomodado com sua iniciante individualidade, que o coloca à parte do todo e o faz se sentir como um paria. A diferença gera inquietação e leva à contestação. A construção da utopia do igualitarismo – baseada nos primórdios do comunismo na Rússia – faz com que seja preciso abrir mão da individualidade, como se abria mão da propriedade. Se sou eu, não posso aceitar o total, o todo. E se não aceito o todo, não posso exigir estabilidade, pois ele só é conseguido mediante padronização.



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