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“Não são os filósofos, mas sim os colecionadores de selos e os marceneiros amadores que constituem a espinha dorsal da sociedade”.
A afirmação está logo no início do primeiro capítulo de Admirável Mundo Novo e acho que, a partir dela, podemos entender um pouco do que Aldous Huxley defendia quando escreveu o romance. E que permaneceu defendendo 15 anos após sua primeira publicação.
Para ele, a estabilidade social não vem com o pensamento criativo, com alguém que se coloca contra o sistema, que o critica, que procura falhas. Mas, sim, de quem aceita o seu papel, nele se enquadra, chegando quase à padronização – o que, aliás, o romance prega.
Homens e mulheres não têm, também, necessidade de filhos, de se apegarem uns aos outros, daí a sociedade de Admirável Mundo Novo ser constituído de homens, mulheres e neutros, lembrando que a proposta é que cheguemos ao “mundo muito mais interessante da invenção humana”.
“O segredo da felicidade e da virtude: amar o que se é obrigado a fazer”, como afirma o diretor de Incubação e Condicionamento, para observar que é para isso que serve o condicionamento.
Se no romance – e depois dele, em um prefácio feito 15 anos depois – Huxley defende esta posição, cabe perguntar: Será que é assim hoje? Somos condicionados para gostar do que faazemos e, quando gostamos, isso nos traz, efetivamente, a felicidade? Vivemos em um mundo onde o pensar de forma independente não é importante?
O condicionamento, no meu entender, não chega ao de Admirável Mundo Novo, mas existe. E a adaptação ao trabalho, à função, sem dúvida é um fator de felicidade e, seja mediante treinamento ou incentivos emotivos, somos levados a assumir esta postura. Quando não o fazemos, acabamos à margem do processo, vistos como párias.
Em uma época em que o moderno era pensar o futuro a partir dos avanços tecnológicos e científicos que iam surgindo, Huxley traçou um perfil social que desembocava no totalitarismo, significando o total controle de tudo que os habitantes do mundo novo e admirável faziam. E colocava em contrapartida a este controle a barbárie.
Somente nela é que podemos ser livres, mas não podemos ser felizes. Temos liberdade de crer, de sofrer, de amar, de pensar por nós mesmos, mas não temos conforto, diversão e vivemos em um gueto. O mundo de Admirável Mundo Novo é maniqueista. Mas não será o nosso, atual, também?
Temos, realmente, opções de escolher, de encarar o sistema e não ser transformado em um pária, colocado de lado, mandado para uma ilha? Esta é uma questão interessante e que, a partir de Huxley podemos discutir. Haverá, então, uma saída intermediária entre a civilização – e com ela os controle – e a barbárie?



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