A opção é entre a civilização e a barbárie. Pelo menos é o que nos põe Admirável Mundo Novo, a obra que consagrou Aldous Huxley e que nos mostra uma sociedade totalmente controlada e domada, onde o pensamento original é punido com o exílio e há, de outro lado, um estrito controle de classes.
A idéia, aqui, no entanto, não é fazer um resumo do que Huxley diz. E sim de situar o seu romance e mostrar o que o próprio autor disse dele, alguns anos depois de sua publicação. Primeiro, o autor.
Huxley era inglês, pertencia à elite do país e seu pai, para se ter uma idéia, ajudou no desenvolvimento da Teoria da Evolução. Em um anbiente rígido, onde os dirigentes pensavam que podiam dispor dos que não tinham privilégio é que Aldous Huxley nasceu em 1894.
Sua primeira obra literária, um livro de poemas – sim, ele era poeta – foi publicado em 1916. Três anos depois, casava-se e deste casamento nasceu seu único filho, em 1920. Admirável Mundo Novo foi escrito em 1931 e publicado no início de 1932. Não é o primeiro livro de Huxley, mas acabou por torná-lo conhecido e transformou-se, segundo todos os críticos, na sua obra mais importante.
Embora trate do totalitarismo, o livro foi escrito antes da Segunda Guerra Mundial e antes de Hitler chegar ao poder. Para traçar um paralelo, outro livro, 1984, de George Orwell, que também trata do totalitarismo, foi escrito após a segunda guerra mundial.
Quinze anos depois de escrever o livro, em uma reedição, Aldous Huxley fez para ele um prefácio. Nele, considera a possibilidade de corrigir o que chama erros do romance e opta por não o fazer. Uma das correções que acha possível é dar mais opções que não entre civilização e barbárie. Mas o romance permaneceu, por decisão do próprio Huxley, como foi publicado na primeira versão.
Neste prefácio, ele se dá ao direito de antecipar o que, no seu ver, pode ser o mundo do futuro. E não vê, nele, muita esperança. Acha que estava caminhando para o totalitarismo, centralização e a eugenia. Tal como no seu próprio romance. Huxley não vê futuro para a democracia, não crê em movimentação social e acha que somente com o controle é que o mundo poderia ir à frente. Talvez tudo isso seja o reflexo do seu próprio nascimento em um meio de elite.
O fato é que, se de um lado, do político, Huxley erro, e feio. Do outro, do avanço da ciência, acertou, pelo menos no que se refere à biogenética, à manipulação dos genes, à programação dos nascimentos. Não chegamos, ainda, ao Admirável Mundo Novo – a propósito, retirado de um verso de Shakespeare – mas já somos capazes de clonar coisas – ainda, não chegamos aos humanos – e temos meios para mudar as pessoas.
Será que vamos chegar ao Admirável Mundo Novo? Não no sentido de Huxley, de controle político, mas no seu sentido eugênico, de tornar os homens e mulheres saudáveis, imunes à doença e com vida mais prolongada.
O que vocês acham?



14 comments
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Janeiro 14, 2008 às 12:48 pm
ferjimenez
Sinceramente? Esse tipo de leitura nao me atrai. Acho desinteressante, a idéia é desgastada, ultrapassada. Pode ter um valor histórico, pois mostra um pensamento inovador pra época, mas hoje em dia nao acrescenta nada de inovador. Sobre o fato dele escrever sobre a biogenética naquele época, isso sim era algo inovador, tanto que foi considerado precusor do pensamenro moderno. Acho que o mais interessante de Huxley é a faceta mística que ele mostra em vários textos.
Sobre a pergunta final se vamos chegar ao “Admirável Mundo Novo”: eu espero que nao.
Adorei essa idéia do Clube do Livro.
Janeiro 14, 2008 às 12:54 pm
ferjimenez
” precursor”
)
Janeiro 14, 2008 às 4:27 pm
Lys
Bem vinda ao clube Fernanda ! Espero que o proximo tema lhe agrade mais. Devo confessar que nao sou fa de carteirinha da ficcao cientifica mas esse livro eh algo que deve ser lido sem duvida dentro do genero. Ainda nao li o livro, estou com ele para ler, mas de antemao ja nao concordo quando voce diz que o tema eh desgastado e ultrapassado. Por que ? Porque temas futuristas como esse desafia nosso senso comum e esse livro continua desafiando ate hoje e nos colocando em discussoes interessantes. Como Lino mesmo disse, estamos longe de chegar no admiravel mundo novo.
Janeiro 14, 2008 às 4:27 pm
Lys
Lino, esse seu post esta supimpa ! Me fez lembrar o filme Gattaca (http://en.wikipedia.org/wiki/Gattaca). Voces ja viram ? Se nao, eh uma boa dica para o proximo final de semana. Acho que de certa forma ja estamos avancando bastante em relacao ao prolongar da vida, controle de nascimento, escolha de sexo, mas obviamente, nao acredito que iremos chegar tao longe por questoes eticas. Bom, mas vou ler o livro primeiro e depois volto aqui OK ?
Janeiro 14, 2008 às 4:46 pm
luma
O Futuro chegou, não é? Não se escrevem mais obras assim ou se escrevem, elas não fazem sucesso, porque acabaram-se os mistérios.
Não conheço a obra, mas pela grandiosidade que diz, dificilmente seria revisada. Talvez um novo livro, que também seria uma publicação arriscada, que poderia fazer a primeira perder o mérito.
Que idéia ótima teve, Lys! Sucesso! Beijus
Janeiro 14, 2008 às 8:38 pm
lucianecesar
Oi, pessoal! Eu li o comentário da Fer (tu que eras a comentarista?) e lembrei do livro 1984, de George Orwell. O autor errou feio sobre como o ano de 1984 seria, mas o livro não deixa de ser interessante hoje em dia. Acho que é isso que chama de clássico. Seria até triste se o livro fosse inovador pros dias de hoje. Assim como a Fer, eu também não considero esse tema como um favorito, mas é legal poder ler algo bem diferente do que a gente costuma ler. Acho que é um pouco essa também o espírito da brincadeira. Abracos e boa leitura.
Janeiro 14, 2008 às 11:57 pm
Elvi
O Lys. Cheguei aqui através do blog da Meire. Como adoro ler, achei super legal a idéia do Clube do Livro.
Não gosto muito de ficção científica e acho que nunca lí nenhum livro do gênero entretanto, vou pegar o livro na biblioteca e acompanhar a discussão de vocês. Será que posso palpitar de vez em quando ?
Bjs.
Elvira
Janeiro 16, 2008 às 2:03 pm
Giobrasil
Oi gente!! Cheguei aqui há alguns dias pelo bog da Cissa já tinha adorado a idéia, mesmo só com a intenção de acompanha-lo. Mas hoje, quando vi qual será o primeiro livro, tive que me “pronunciar” rsrsrsr
Li este livro quanto tinha 12 anos, já há algum tempinho..(já tenho um filho mais velho que isso) e amei. Mas nunca tive alguem naquele época para compartilha-lo comigo. Ninguém gostava deste tipo de leitura, infelizmente a internet não existia….Ainda tenho ele aqui, mesmo depois de todos esses anos. Mas agora acho que chegou a hora!
Posso dar uns palpites aqui também????
Beijos!
Janeiro 17, 2008 às 3:28 pm
alvarosilva
Mesmo sem ainda pretender entrar nos comentários diretos sobre Admirável Mundo Novo, que comecei a ler porque pude copiar um exemplar, o prefácio acrescentado por Aldous Huxley ao texto, em 1946, reflete, por parte dele, uma preocupação: deveria incomodá-lo, então, a idéia de que sua obra pudesse vir a ser considerada maniqueísta por aqueles que a lessem.
Antes da II Grande Guerra, uma boa parte da inteligentzia (e, creio, também da “burritzia”) mundial direta ou indiretamente defendia posições maniqueístas. O fim da guerra trouxe tantas dúvidas que, mesmo ainda na infância da Guerra Fria que então passava a atormentar o mundo, começou-se a colocar uma pá de cal nesse pensamento que, de resto, de tão antigo, suas raízes perdiam-se e se perdem até hoje em meio aos conflitos da antiga Pérsia do século III.
Civilização X barbárie, bom X mau, bem X mal, céu X inferno e tantos outros “conflitos humanos” estavam cedendo lugar a pensamentos e conceitos mais racionais. Ou então mais sofisticados intelectualmente. O que não significa dizer que nenhum deles tenha sido construído em tempos bem anteriores.
Mas vale o registro enquanto avanço na bela história da construção dos homens ideais daquele Admirável Mundo Novo. O que não deixa de ser atual hoje, quando discutimos, mesmo de longe, clonagem, cientificismo e criacionismo, por incrível que pareça no país mais rico e poderoso do mundo.
Por ironia, questão de “casta”, talvez.
Janeiro 17, 2008 às 5:35 pm
Eduardo (o tal Edu)
Gostaria aqui de correr em defesa do genero ficção científica (FC) e mais especificamente do George Orwell e de seu clássico 1984.
Por definição, a FC é um gênero literário ficcional, portanto não tem como meta fazer previsões sobre o futuro e sim usar um ambiente não-convencional para levantar questões aos leitores ou simplesmente entrete-los.
Desse modo acho impressionante que, de fato, alguns autores conseguem sim colocar elementos nas suas obras que eventualmente acabam por se concretizar. Arthur Clarke, uma autor de ficção científica, por exemplo, foi um dos primeiros a surgir com a idéia de satélite geo-estacionário, embora não o fez numa obra de ficção, mas num paper científico. Muitas das viagens imaginadas por Júlio Verne e H.G. Wells no século XIX ou no começinho do século XX já se realizaram, inclusive aquela à Lua.
George Orwell escreveu 1984 em 1948, mas o livro não se propõe a prever como seria a vida dalí 40 anos. O interesse de Orwell, um cara profundamente socialista, era denunciar o Stalinismo, então ele imaginou o resultado desse regime levado às suas últimas consequencias e daí surgiu o livro. O impressionante é que mesmo que a intenção do livro não fosse a de previsões ainda assim ele as fez. Ele previu coisas como o missil teleguido, um horror ainda muito longe da realidade na década de 40 (vida imitando a arte ?).
Outra de suas previsões mais assustadoras, que também se concretiza , é a possibilidade dos cidadãos serem vigiados em todos os momentos. Quem vive em Londres já vive isso. Ao andar pelo centro da cidade não se passam mais de alguns minutos sem que uma camera te observe.
A proposito, para quem ainda não sabe, aquele que dirigia o pais e vigiava a todos, a versão de Stalin de 1984, era chamado de “Grande-Irmão” (Big Brother), daí o nome do tenebroso programa de TV.
Em suma, questões de gosto à parte, a FC é um legítimo genêro literário. Apesar de saber que os autores não são profetas, posso dizer que a minha vida teria muito menos graça sem eles. Obrigado Issac Asimov, Ray Bradbury, Frank Herbert e muitos outros pelo poder de me transportarem desse mundo para outras realidades tão ricas e criativas. Obrigado pelo continuo estimulo à humanidade para seguir em frente e perseguir esses possiveis futuros !
Janeiro 17, 2008 às 5:56 pm
Eduardo (o tal Edu)
Agora sobre a questão colocada no primeiro comentário da pagina: ‘Sobre a pergunta final se vamos chegar ao “Admirável Mundo Novo” ‘, creio não ser essa a direção correta a se perseguir.
Talvez umas perguntas mais insitigantes sejam: quais dos elementos ficcionais do livro já são realidade em nossa sociedade ? As metáforas que ele usou para questionar os rumos da sociedade de seu tempo ainda são válidas ?
Cada um terá sua interpretação ao final da leitura, mas posso adiantar desde já que “Admiravel Mundo Novo” é qualquer coisa menos ultrapassado.
Janeiro 17, 2008 às 8:09 pm
Lys
Ei… maridex andou dando palpite por aqui
… que orgulho
. Para quem nao sabe o tal do Edu eh o mesmo Edu maridex.
Apresentacoes feitas…
Pois eh Edu, bem que voce podia ser o autor numero 7 ne ? Ta faltando so um e voce tem tudo a ver com o clube de livro.
Janeiro 18, 2008 às 12:29 am
Lino
Edu:
As suas colocações sobre a ficção científica foram ótimas. Gostaria de acrescentar que, na maioria dos vezes, o autor viaja, mas usa como base um tema atual, que afeta a todos nós. É o que fazia, por exemplo o Gene Rodenberry no Jornada nas Estrelas.
A FC, neste caso, não é uma fuga, mas um modo de discutir situações reais tendo como fundo uma fantasia que, como assinalou, serve para entreter. Os clássicos citados, como 1984 e o próprio Admirável Mundo Novo fazem isso, e muito bem. O primeiro, em cima do totalitarismo stalinista e o segundo sobre os novos rumos que a ciência estava tomando na época em que foi escrito.
Quanto a questão da civilização versus barbárie, ainda a acho pertinente, pois não está superada e o mundo, de um modo geral, é maniqueista, como assinalou o Álvaro no comentário. Do ponto de vista da ciência, talvez quase tudo que Huxley sonhou possa ser realizado hoje, com exceção da reprodução como feita no livro.
Janeiro 18, 2008 às 2:27 am
Edu
Caro Lino,
concordo e digo mais.
A questao de civilizacão ou barbárie é mais candente do que nunca. Nos últimos dez, anos presenciamos uma séries de massacres na Africa, guerras na Europa, Estados Unidos praticando todo tipo de arbritrariedade em Guantanamo (incluindo tortura) e invadindo e ocupando Afeganistão e Iraque sem maiores resistências por parte dos outros governos mundias. A linha que divide a civilização da barbarie é muito tenue.
Outro exemplo impressionante foi o Furacão Katrina no sul dos Estados Unidos. Em poucos dias toda a estrutura da sociedade mais poderosa do mundo ruiu. Os ricos conseguiram ser resgatados mas os demais ficaram para tras e enfrentaram a barbárie de frente: violência, saques e tudo o mais que a barbárie requer. Enquanto houverem desigualdades tão grandes na nosso sociedade a barbárie sempre estará à espreita.
Quanto às previsões do Huxley teve uma outra que não se realizou: O soma, a droga perfeita. Eu conheco gente que ficou muito animado com o anuncio do Prozac achando que ele seria o tal, mas parece que não foi assim